Estandarte = + ≠

O homem que transforma, cria e empreende
É um homem que não é governado
Porque governa a si próprio
Dirige sua vida e não se deixa abater pelos desafios
Muda seu pensamento, cria soluções e empreende esforços
Para alcançar seus objetivos
Indivíduo não-governamental
senhor absoluto de seus rumos
Protagonista de sua história de vida.

Entrevista com Pedro João Cury

A) Biografia: Ser e Obra

E: Cury, conte um pouco de sua trajetória.

Filho caçula de imigrantes libaneses de doutrina sufis (maronitas), nasci em Uberaba, Minas Gerais. Meus pais foram exemplo de amor e crença para com a vida, a família, os amigos e o trabalho. Analfabetos, meu pai, seo Nagib, foi um auto-ditada que conseguiu educar cinco filhos atrás de um balcão típico de vendinha caipira (Empório São João de Secos e Molhados) junto com minha mãe, dona Florinda, dando exemplo de perseverança e otimismo, nos ensinando o respeito ao próximo, valor perene de união entre diferentes.

Neste ninho, vivi minha infância e adolescência convivendo com manifestações culturais significativas, tanto de caráter religioso quanto folclórico, que me marcaram e ainda marcam até hoje. Viemos prá São Paulo quando eu tinha 15 anos.

Com 19 anos, entrei na FEI (Faculdade de Engenharia Industrial), obedecendo a um ciclo normal para um jovem da minha idade, num momento em que explodia o golpe militar de 1964. Entrei pro TUCA (Teatro da Universidade Católica), após o Festival Internacional de Teatro Universitário em Nancy / França,premiado com a peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, em que se refletia sobre a questão da migração do nordestino e a reforma agrária. Participei também de O&A, uma montagem experimental que contemplava o Conflito de Gerações. E, aqui, inicia a minha busca para o tão importante processo de auto-conhecimento e visão de realidade.

Com a ditadura e todo o movimento de mudança de valores que ocorreram no século XX, o século da violência, comecei a acordar para uma realidade que até então eu desconhecia: a de que prá viver, tem-se que pegar a vida com o coração e com o intelecto, com mãos artesãs num fazer coletivo, fraterno e responsável, sem precisar de doutrinas ou ideologias castrativas de escolhas individuais e/ou grupais. Uma democracia que se pretenda, de fato, a Ética na diversidade e na igualdade...como nortes possíveis e não como leis rígidas...por aí...

Larguei o curso de Engenharia faltando um ano prá me formar e fui viver os anos dourados (entre l968 e 1975) de porrada nos bastidores, eventos de paz e amor, sexo individual e coletivo, de ideologias e doutrinas, de droga e de rock and roll até encontrar o que foi a grande virada da minha vida: minha esposa Monika, já falecida, de origem alemã, e que me ensinou a ser guerreiro e me presenteou com dois filhos e um exemplo de vida inesquecível. Claro que depois tive outros grandes sustos...e espero ainda ter mais...

Voltei prá Faculdade aos 40 anos, me formando em Sociologia e Ciência Políticas, na Fundação Escola de Sociologia e Política (FESP). E um novo portal para o mundo se abriu a partir do meu envolvimento intelectual com as disciplinas Filosofia, Antropologia e Economia Política.

E: Como você se define enquanto profissional?

Meu currículo conta minha trajetória e experiência profissional e me defino como alguém que gosta do que faz, um personagem definido por Carlito Maia, um publicitário jurássico que dizia “vim ao mundo à passeio, não à negócios,”
Só que, prá isto, tem que ter claro o que se pretende. Estar no mundo, existir e participar dele custa muito esforço, dedicação, humildade, pesquisa, inteligência, compromisso, responsabilidade, cumplicidade, doação, trocas...por ai...e... daí...trabalhar, prá mim, é uma das condições humanas na busca da felicidade.

Aposentei minha Carteira Profissional, em seu lugar, tirei a minha Carteira de Artesão.

E: Pessoas que vêem seus bordados identificam neles elementos de várias culturas. Como se dá essa hibridação em sua obra?

Espontaneamente. Sinto que fui contagiado ou mesmo, contaminado, pela cultura mestiça, que vejo na minha origem, enquanto brasileiro nascido mineiro, de descendência árabe, minha vida em São Paulo, capital de todas as raças e de todos os credos e comidas, eu creio que esta hibridação vem daí. Além dos estudos,visita a eventos ligados a Arte e também ter vivido grandes Bienais, entre outras influências que estão aí...à disposição do que é belo...bom. gostoso e se propõe enquanto expressão, né não ???

E: Qual a influência de sua formação religiosa sobre sua obra?

Acho que pela imensidão de signos e de rituais que ela apresenta pois, até meus 20 anos, religião prá mim era pura emoção e plasticidade. Inicialmente, fui doutrinado na religião católica apostólica romana, num período em não tinha sido instituído este Deus da prosperidade e das trocas econômicas.

Com certeza, venho também influenciado por uma doutrina cristã compromissada com o respeito ao próximo, pelo exemplo vivencial dos meus pais e posteriormente, através de muita reflexão e vivência, reflexão e vivência e mais reflexão e vivência que perdura até agora, me considero um pensador cético, sem ortodoxias e dogmas. Este aprendizado vivencial e reflexivo abriu meu horizonte para algo muito maior que doutrinas.

E: Seus bordados são autobiográficos? Comente.

Alguns bordados podem ser considerados autobiográficos na medida em que expressa o que carrego de natural, de humano e de espiritual, em mim . Já outros, são lúdicos e apontam para questões que gosto de provocar e que fazem parte da cultura que carrego ao longo destes mais de 60 anos de vida. E, tem outros, onde busco fazer experimentações, que são os Geomét®icos.

E: Fale a respeito dos livros que você escreveu ou está escrevendo.

Na verdade eu não escrevi “livros”. Prefiro a palavra “ensaios”. Até porque o Livro = + ≠ (em layout) é focado em conceitos e práticas arte-educativas, produzido por várias mãos e também como uma forma de contribuir numa área ainda pouco explorada na Educação, que é a Arte. E também porque não quis fazer sozinho. Eu apenas considerei o eixo conceitual e convidei amigos que colocaram o tempero: o texto do Leandro e do Eric, ex-alunos meus na ESPM e hoje parceiros. A direção de arte deste “livro-ensaio” foi do Paulo Pitombo, grande amigo e parceiro nos trabalhos de Arte-Educação e Responsabilidade Social (inclusão social). O Paulo Lima cuidou de toda a diagramação. Ainda participaram da produção o Ricardo Ferrer e o Pablo, também ex-alunos e que colaboraram com fotos. Entre os anos de 1966 e 1980, eu experimentei o teatro, a escrita, a argila e tridimensionais, o desenho e a pintura. De livros, posso considerar um trabalho bem antigo com poemas e outro com contos ( O cru do nu). Tudo experimental e era fruto de um contexto que eu vivia no momento, entre o final dos anos 60 até a década de 80.

Agora, minha vida está tomando outro rumo...parei de escrever...eu bordo...e...me disseram que bordar é poesia...então...

E: Qual a relação entre seus bordados e o projeto da Escola de Arte-Educação?

Uma relação de crença, amor e responsabilidade cúmplice. A partir do momento em que fui me envolvendo nessa área da arte-educação, principalmente dentro da FEBEM, atuando com jovens em estado de “privação da liberdade” e, posteriormente, com a Guarda Civil Metropolitana e também com altos executivos, pude sentir na pele a questão política do preconceito e descaso social fundados num senso comum e de como as abordagens arte-educativas promovem uma reflexão mais íntima e diferenciada na tomada de consciência e sentimentos.

Desde l997, venho tentando realizar um sonho: o de ter uma Escola = + ≠, fundamentada nos princípios que organizam o pensamento arte-educativo e que formaria o jovem artesão-aprendiz e empreendedor, através de Cooperativas Culturais Populares, promovendo assim a real inserção social e cidadania.

Uma das formas de resolver esta questão é vender meu trabalho de artesão e disponibilizar parte desta renda, para meu trabalho social. É isso...arte-educação e o artesão-educador a serviços da inclusão, numa forma plenamente viável e politicamente, correta...né não ???

B) Arte-educação

E: O que é, para você, a arte-educação?

É uma ferramenta de transformação humana. É uma linha de pensamento e práticas diferenciadas do aprendizado oficial.

O pensar arte-educativo é, alem de um desafio maravilhoso na relação Ser e Obra, tem que ser vivencial e reflexivo.O pensar arte educativo trabalha com a “educação dos sentidos”.É um caminho também reflexivo. Há outras vertentes...mas que é sensitivo, isso é.

Não se trata de introduzir a Arte no banco das escolas, pois isto até existe. É olhar a Educação sob o prisma da Arte. Não vou generalizar, mas, o pensamento pedagógico oficial, em sua maioria, trabalha o Conhecimento numa visão muitas vezes utilitarista, mercadológica e específica, focando para a produção de bens de consumo e na busca do melhor emprego que visa melhores salários, em detrimento do trabalho.

A arte-educação trabalha com o sentido dos sentidos, resgata a sensibilidade humana, além de ser ferramenta criativa para Educadores.

Como entendo hoje que, tanto as doutrinas Religiosas e Políticas como a própria visão mercadológica não produzem mais significados, a Arte trás consigo esta possibilidade: a de expressar o que habita de humano em nós, atuando com o que carregamos de significados, crenças e valores.

E: Qual a diferença entre a arte-educação e a educação formal?

Não significa que uma anula a outra. Quero esclarecer que agregar Arte e Educação não é tarefa que o argumento pode, simplesmente, esclarecer. São conceitos que se conjugam e que se comprometem.

A Arte-educação tem uma preocupação com valores estéticos, trabalha os sentimentos humanos. A Arte não lida com significados. A Arte lida com simbólicos e inclui os sentidos. A educação formal separa a emoção da razão. A arte-educação atua na interface desta dialética: razão x emoção.

Na minha leitura, a arte-educação lida com a Estética numa relação dialética com a Ética.
Já a educação formal lida com a racionalidade e com especificidades, sem a visão do todo.
No entanto, ambas podem formar e/ou deformar caráter na construção do humano.

E: Como um sujeito pode exercer seu protagonismo por meio da arte-educação?

Primeiro porque acredita na possibilidade de transformação humana que o fazer-artístico promove, com uma visão de mundo muito mais crítica, participativa e cúmplice, conseqüentemente, mais consciente.

O artista-educador prá mim é um ING, ou seja: o Indivíduo Não-governamental que traz consigo um conceito atual que propõe a construção de um novo Homem enquanto Ser Consigo (Ético) x Ser Saber ( Sujeito do Conhecimento) x Ser Poder ( Sujeito da Transformação), como nos faz pensar um certo autor já falecido.

E: Como a arte-educação pode promover a transformação social?

Através da inserção do pensamento arte-educativo nos bancos das Escolas oficiais tanto para os alunos quanto para os professores, o que significa práticas artísticas para todos. Volto a insistir: não se trata apenas de introduzir a Arte nos bancos escolares.

A partir do momento em os agentes pedagógicos entendam que a Arte possibilita o mergulho do Sujeito para dentro de si mesmo e para fora, neste movimento dialético, que faz com que o Sujeito como Protagonista da própria história, construindo o coletivo.

Creio que o que chamamos de transformação social inclui mudança de valores sociais e que ocorre a partir do momento em que mudamos nossos pensamentos, crenças e atitudes particulares. E, aqui, sempre insistindo no papel fundamental que exerce um conhecimento mais aprofundado do que seja Cultura a partir dos seus mitos que ajudaram a construi o civilizatório, neste mundo agora globalizado e unido por interesses econômicos e conflituosos.

Paulo Freire deixa muito claro a importância na formação das pessoas para que possam se perceber, perceber a sua condição de seres humanos e a sua realidade de maneira crítica e participativa, no contexto em que se inserem e convivem. E Cultura, é vida pensada, como nos ensina outros mestres, como Alfredo Bosi, por exemplo.

E: Qual a relação da arte-educação com o empreendedorismo inovador?

Isto é uma crença que carrego. É quando se promove a produção de bens de consumo considerados como “obras de arte” ou, se quiser, com a produção de artesanatos na promoção de geração de renda com sustentabilidade. Falo em mão de obra, mão autoral e que junta com outras mãos, formam o Coletivo, leia-se Grupos de Cooperativas inovadoras, criativas, regidas por Fóruns Comunitários. Dá trabalho, mas é desafiador.

Daí a questão da Cultura e de uma Economia que se pretende criativa ser fundamental neste processo que nos faz entender a dificuldade que é a aceitação do pensamento arte-educativo.

A produção de bens de consumo localizados, considerados como artesanatos que possibilita a geração de renda favorecendo toda uma comunidade a partir da criação de Cooperativas Culturais Populares e construindo mercados alternativos.

O povo brasileiro é muito rico na sua criatividade. Apenas que não nos deixam ser e aplicar esta Criatividade. E o fazer-artistico coletivo é o que de melhor une espontaneamente e afetivamente, um Grupo de Mãos –de - Obra Autoral: as Artesãs e os Artesões.
Tem alguém aí que está lendo isto aqui e que duvida desta possibilidade?

E: O que você quer dizer com a expressão “consciência enquanto atelier”?

Nossa concepção ocidental e abstrata de Consciência contem uma intrigante capacidade de apreensão sensitiva, emotiva, simbólica do que seja realidade, de compreensão e critérios de julgamento,de resgatar e compor memória de realidades vividas e tantas outras possibilidades e mais... conecta-se em harmonia com um Corpo físico e sensitivo, em relação mútua de Conhecimento e comprometimento.

Falo de uma Consciência intuitiva e lógica, matemática e axiológica, sensitiva e motiva que questiona e responde, que é como nos contam alguns dos pensamentos sobre o tema.

Falo da Consciência enquanto um “espaço abstrato ” muito íntimo, muito própri, particular, subjetivo onde guardamos objeto,s palavras, fatos, sentimentos...enfim...to um vivencial...conhecido ou não...

O Atelier, “espaço afetivo das coisas” ali contidas, em que o Artista “trabalha” com simbólicos próprios, particulares, íntimos e pessoais, e não apenas com significados apreendidos. Cada obra idealizada se relaciona com tudo e com todo o espaço do Atelier, onde ela, a obra do artista é concluída.

A Consciência que é sensível, inteligente e operante, que capta tudo vai acumulando nosso vivencial e reflexivo, como num imenso arquivo, banco de dados e laboratório, tudo ao mesmo tempo, aqui e agora, intuição, imaginação, pesquisa em cooperação mútua do Corpo, também sensível e inteligente, operante e sempre em QAP...
A Consciência prá mim é e sempre foi o cofre dos nossos simbólicos, do que aprendemos no vivencial e no reflexivo, ninho que acolhe nossos sonhos e devaneios, onde a imaginação tece, compõe, monta e desmonta prá compor o novo, numa eterna esperança criativa...emotiva...ética...

E: Você questiona o que chama de “estética do feio”. O que significa esse termo e qual sua influência sobre a sociedade? Por que você o confronta?

Creio que o que falta hoje em dia é a Vontade de Beleza no contra-ponto da padronização do gosto e controle social. Padroniza-se a Estética. Anestesiam sentidos.

Somos seduzidos pelo consumo e valores-objeto que mudam a cada instante, por uma comunicação compromissada com o Ter e não com o Ser.

Quando atuei mais diretamente com a Publicidade, pude perceber a coisa do dado, da informação e da comunicação. Do uso de significantes para produzir significados. Coisas do tipo: “Prove seu amor pro seu pai. Dê a ele um relógio de ouro.” Não estamos imunes aos apelos publicitários. Eles atingem a grande maioria do povo brasileiro. É uma linguagem inteligente, padronizada e articulada, sutil, uma espécie de “micro-física” de um “micro-poder” atuando sutilmente nos nossos sentidos, induzindo e controlando nossos desejos.

Esta padronização de gosto, por exemplo, pode ser demonstrada na produção midiática da “ musica de sucesso’, que a cada instante apresenta uma novidade prá durar uma semana. Como diz Cazuza: um museu de grandes novidades.

C) Economia Solidária e Política

E: Você é um arte-educador que fala sobre política? Qual a relação entre ambos os campos do conhecimento?

Vou tirar do bolso uma frase de um dos meus pensadores prediletos, Michel Foucault, quando afirma: “Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos e os poderes que eles trazem consigo”. E o que ele quer dizer com isto?

Entendo que ele ajuda a responder quando aponta a formação de categorias de sujeitos falantes (a fala do juiz, a fala do criminoso, a fala do psicólogo, a fala do educador...a fala do...). Aponta também para o sistema de ensino e sua relação com a ritualização da palavra e a fixação de papéis para os sujeitos que falam, por exemplo: a fala da medicina, a fala do judiciário, a fala da pedagogia. Afinal,você sabe com quem está falando???
Estou repetindo o que disse na pergunta anterior. É importante chamar atenção prá isto.

A linguagem não é neutra.
A Educação promove a compreensão de significados específicos e disciplinados.
A pergunta que me faço é: o que significa hoje o Saber?
Quem é aquele que sabe e conseqüentemente fala?
E, quem sabe, sabe o quê?

Hoje, a internet fala e nos enche de informação e mesmo assim desconhecemos. Creio que é uma questão de opção do Educador quando assume seu emprego ou titulagem. É questão da sua missão que, prá isto, precisa ter visão crítica e linguagem acessível, despertar o educando provocando a curiosidade.

E: O que você chama de economia solidária e de economia fraterna? E como esses conceitos poderiam ser aplicados à sociedade brasileira?

Sobre a economia solidária não tem nada de novo. Ela se trata da idealização de Cooperativas Populares nas comunidades, sendo este assunto já antigo. Recomendo àqueles que ainda desconhecem este conceito que investiguem sobre o trabalho do economista brasileiro Paul Singer e a questão da Gestão de Cooperativas que invadiu as Universidades como PUC e USP.

Quanto à economia fraterna, ela vai além da solidariedade. Ela passa pela espontaneidade na doação. Ela passa pela cumplicidade, algo que busco definir na metáfora da troca sem troco.

Isto significa que identifico no nosso povo brasileiro uma solidariedade espontânea a ponto de, quando chamada a socorrer em momentos de calamidade pública, os que nada ou quase nada têm são os primeiros a estenderem as mãos.

A economia fraterna não é caridade. É ato político, pois vai contirbuir junto àqueles que não necessariamente possuem CPF ou CNPJ. Cheira a algo utópico, mas não é. Ghandi diz com muita clareza: se você tem muito e está sobrando, então você tirou de alguém que não tem.

A idéia de uma economia fraterna vem também da experiência do Banco do Povo, idealizado por Muhammad Yunes em Gremmin (Índia), no qual o empréstimo é feito para um grupo e não individualmente, cujo acerto da restituição é feito dentro das possibilidades que o grupo tem de repor e, o que é mais importante, o dinheiro não é para o consumo e, sim, para investimento que possa promover a sustentabilidade pretendida. Ou seja: uma forma criativa, justa e solidária no trato com o dinheiro particular. É cultural.

Que tal se pensar em Fóruns Populares para questões estruturais da Economia ? O movimento que envolve Commodities Ambientais passa por aí.
Já ouviu falar em BECE ?

E: Em seus diálogos, especialmente no campo da economia, estão sempre presentes acrósticos: PIB, FIB, ING, etc. Por que você utiliza essas siglas? Alguma razão especial?

Sim, há uma razão especial: a de demonstrar que não é a Economia (Ter) que deve mover a sociedade, mas, sim, a Sociedade civil organizada (Ser), que, a partir de fóruns, pode determinar o rumo que a escolhas da Economia podem seguir.

Assim, o acróstico PIB – Potencial Interno Bruto é uma paródia sobre a Economia quando propõe o crescimento do PIB – Produto Interno Bruto para analisar o bem estar de uma nação.
Então, achei interessante provocar uma reflexão sobre esta sigla, numa forma diferenciada, mas possível. Pouco sabemos de nós. Mas, sei de uma coisa que ilustra e que repito: todo e qualquer ser humano é potente, possível e capaz de traçar sua trajetória de vida sem ficar aprisionado pela sedução do consumo descartável. E prá isto é preciso resgatar o sonho. Resgatar o que se chama de utopia.

Já o conceito de FIB – Felicidade Interna Bruta não é meu. Este conceito nasce em 1972, num país pequeno localizado no Himalaia, no reino de Butão, a partir do momento em que a qualidade de vida (leia-se: estar feliz), a preservação do meio ambiente, vão além do PIB – Produto Interno Bruto do país, como é usual. E o mais importante: questiona-se o grau de Felicidade, que é subjetivo, que pode ser mensurado por parte das pessoas. Ou seja: é possível sim, ser feliz sem o cabresto de uma Economia cujo modelo globalizado está decadente. É uma coisa que o despertar de um novo ser humano poderá demonstrar.

E: Você utiliza frequentemente o termo ING (indivíduo não-governamental). O que esse conceito representa?

Este conceito representa a possibilidade de se pensar este novo homem e, conseqüentemente, um novo deus. Ou seja: a do ING - Indivíduo Não-Governamental. Este conceito, eu o trabalho numa dinâmica de grupo, quando atuo em programas motivacionais e está contido no programa da Oficina Livre do Conhecimento.

Considero o ING - Indivíduo Não-Governamental como aquele que sente, pensa, crê e age conscientemente, a partir do Livre-Arbítrio. Ele carrega consigo a criatividade (coragem de criar), reconhece que toda e qualquer ação é uma ação política (poder de falar e agir), embora eu não esteja falando de política partidária apenas e, sua espiritualidade reside em suas crenças próprias que o leva a um comportamento ético, de respeito a si mesmo, ao Outro/Outrens e à Natureza.

É por aí...

E: Como a Economia Fraterna pode “reencantar o mundo”?

A brincadeira começa a partir do momento em que houver uma distribuição justa da riqueza, que passa pela Ética na Política, por uma revolução na Educação e Arte para todos, além do respeito a Espiritualidade e ao Meio-Ambiente. Com esta visão de mundo e comprometimento no cotidiano, já demos um belo avanço.

Coisa que ainda levará algum tempo para ser absorvida pela sociedade, por estar envolvida diretamente com questões que passam pela Cultura e por práticas políticas inovadoras e coerentes. Resgatar mitos culturais e retomar o valor folclórico das palavras e das coisas, onde o poeta seja tão importante quanto o ator político, o religioso e o trabalhador: mãos artesãs e pensamentos afetivos.

Talvez as futuras gerações, em função do que a nossa geração está promovendo, possam redirecionar o comportamento econômico-social e político para este viés, por se tratar de um gesto humano que carrega consigo o conceito de inteligência, de solidariedade cúmplice de afetividade.

E: O que é o Bem de Capital Humano?

Acredito no poder da dialética do Sujeito na relação prá consigo mesmo, entre Corpo físico x Consciência abstrata. É o que acumulamos e disponibilizamos com o nosso repertório pessoal, vivencial e também do conhecimento objetivado.

Representa também as “técnicas e tecnologias” que todo e qualquer ser humano possui e que nem sempre utilizamos ou nunca nos foi esclarecido devidamente, como são esclarecedores os manuais dos produtos e equipamentos que utilizamos no nosso dia-a-dia.

É a Consciência que nos possibilita intuir, sentir, pensar, raciocinar, querer e o nosso Corpo composto por cabeça, tronco e membros, mãos com dedos, cinco sentidos físicos e suas infinitas possibilidades de uso, que podem ser aprimoradas ao longo da nossa vida.

E tudo isto plenamente nosso, pessoal, particular, um ferramental que todo ser humano possui, como já coloquei.

E: Ao falar de Capital Humano Disponibilizado, mais uma vez você aproxima economia e valores humanos. Fale a respeito desse conceito?

Como Capital Humano Disponibilizado considero as ferramentas da Consciência e do Corpo e nossa experiência de vida que nos possibilita viver acrescidos do desejo de poder ajudar na construção de um mundo plural, solidário e responsável, espontaneamente.

É a disponibilidade espontânea na ajuda ao próximo e mesmo no zelo com a Natureza. É dispor deste capital humano na doação espontânea, é a troca sem troco solidária, cúmplice e consciente, onde cada um pode dar o melhor de si em cada pensamento, palavra e gesto no aqui e agora.

E: Se você propõe um modelo econômico que começa no indivíduo, deve ter experiências que comprovem suas discussões sobre economia. Como você aplica no dia-a-dia as discussões econômicas que levanta?

É bom esclarecer que comecei a minha mudança de pensamento a partir de uma necessária e persistente revolução interna, subjetiva.

A partir de um problema de saúde que vivi, mais outros acontecimentos diretamente ligados a minha atuação como prestador de serviço, contratado numa Escola de Capacitação para Empregabilidade, pela mudança do norte da Escola, me descompatibilizei com a Supervisão. Daí, pude rever minhas crenças e valores.

Tanto que cheguei a um momento da minha vida em que o ganho financeiro deixava meu saldo bancário cada vez maior, me levando até a investir na Bolsa de Valores. Chegava ao fim do mês, eu estava sempre sossegado e com disponibilidade de satisfazer meus desejos de consumo. Daí que me questionei se tinha vindo ao mundo a passeio ou a negócios, como dizia um personagem criativo do passado. Muitos amigos me questionavam sobre a minha postura de me demitir num momento em que eu tinha alto ganho salarial e convênio médico de primeiríssima qualidade.

Acontece que me descobri artesão aos 60 anos, quando descobri o bordado com pano de juta, lãs, linhas e barbantes coloridos, alem de possuir um conhecimento intelectual que me capacita a atuar em programas motivacionais para Empresas. Programa este identificado na Oficina Livre do Conhecimento, que se trata de uma linha de pensamento atuante na área motivacional para Empresas, principalmente buscando em áreas onde predomina o conflito ou que necessita de entendimento e comprometimento com a visão cultural da empresa que busca inovação e comprometimento.

A crença na minha capacidade de atuar fora da dependência do emprego, motivado pelo meu ganho de aposentado que não é muito, mas com o qual consigo sobreviver e, acrescido da crença no meu trabalho, decidi pela mudança, sendo eu mesmo um experimento de mim.
Faz sentido isto prá você ?

E: Em seu trabalho, você discute crenças e valores e cita figuras de poder na promoção de discursos. Para você, qual é a responsabilidade dos religiosos, filósofos e psicólogos ante as sanções atuais e futuras?

Simples: a de promover significados. Significados que brotam dos mitos, crenças, valores, pensamentos e atitudes que, historicamente e culturalmente falando, emanam do povo. Formar uma nação voltada para a paz entre diferentes, e não seguir modelitos importados de bem-estar e de religiosidades questionáveis.

Criam-se inimigos como Satanás e Terroristas para unir a sociedade sendo que, isto, é tremendamente perigoso. È crítico mexer com subjetividades coletivas.

Está aí a experiência do Partido dos Trabalhadores que, com a denúncia do mensalão, fraudou com a esperança de um povo e, agora, distancia a juventude e adultos da prática do voto democrático na escolha de candidatos comprometidos com mudanças essenciais e efetivas. Estão aí os religiosos, com seus eventos milagreiros e discursos sedutores preocupados com o dízimo que citam a todo instante, criando correntes de ajuda financeira, tudo em nome do Senhor.

O ator político, não tem mais a tarefa de realizar prá grande maioria de necessitados. Os professores, não têm como promover a consciência crítica.. .penso por aí...

E: Por último, que recado gostaria de deixar para os visitantes de seu site?

Obrigado por chegar até aqui e, como nos ensina Ghandi: seja a mudança que pretende ver no mundo e fecho com palavras que não são minhas mas, tão aí :

- “ vá caçá o seu fazê...com mais respeito, por favor !!!